ALUN, BAILARIN OU O QUÊ?

Eu não costumo referir às pessoas com as quais trabalho – a menos que isso seja extremamente necessário (como acontece no ensino formal!) – como alunas, alunos ou alunes. Tenho teóricos e teorias que poderiam explicar essa escolha mas, aqui, prefiro dizer no meu próprio blá! Seguinte: cada pessoa que vem, ainda que sinta-se na condição de aprendiz, tem sempre, sempre… muito mais a ensinar. Não é papo de boteco! É fato. O que falta, na maioria das vezes, é um modo de fazer que permita a escuta desses saberes. Como eu costumo ser uma boa ouvinte e uma observadora sagaz, me liguei disso há anos e desde lá, fiz essa escolha. Parece bobagem, parece? Mas não é! Não são neutros ou ingênuos os nomes que damos aos “papeis” que as pessoas desempenham. Cada designação está diretamente ligada à uma relação de poder entre esse e aquele, numa relação que captura ambos e os coloca, em dado momento, com posturas pré-definidas, com pouca margem pra invenção de novas formas de ser/estar. Por isso, nos espaços informais de ensino, eu prefiro solicitar (assim como solicito a identidade de gênero – para que eu possa me referir a pessoa binária ou não-binariamente) que a pessoa diga como ela quer ser tratada. Bailarin, dançarin, intérprete, e suas combinações. Tudo é possível. E, na medida em que as pessoas vão se apropriando desses termos, vão criando, com eles, outras formas de ser bailarina, intérprete-criadora, bailarina-atriz, etc. (feminino aqui, apenas como exemplo!) E vão se apropriando, para além do nome, de um fazer, de uma postura, de um jeito próprio de se relacionar com a dança, muito mais parecida com a troca que mencionei antes. Quando minha bailarina encontra outras (de novo, exemplo!) a relação é outra! E nisso, existem coreógrafes, diretores, etc. em cada pessoa que aterrissa no planeta Guerra, e nossas trocas são igualmente incríveis. Então, é necessário sim nominar, é necessário sim, criar situações em que a pessoa perceba o quanto disso tudo ela já tem e, depois disso, a gente anda junto. Ora com cara de bailerine, ora com cara de dire… mas, lado a lado, nessa horizontalidade que vai do conceito à prática. Tenho maior orgulho em ser “profe” e acho essa expressão carinhosa à beça! Mas, é justamente por ser essa profe que o rolê aqui é “esquisito” assim, meio fora da curva da maioria dos espaços informais de dança. Mas… tudo bem! Pra galera ver, eu sou “a professora” porque, no nosso território, pelo tempo em que a gente estiver juntes, só a gente vai saber quem será o que! Explicado? Ah! Falando nisso, não poderia deixar de citar Tom Zé! Caso você ainda não conheça, se liga nesse som!

Eu ‘to te explicando

Pra te confundir

Eu ‘to te confundindo

Pra te esclarecer

‘To iluminado

Pra poder cegar

‘To ficando cego

Pra poder guiar

Antônio José Santana Martins | TOM ZÉ