ERA UMA VEZ…

Depois de dois longos anos que pareceram uma década, eis que sem muito anúncio ou estardalhaço, volto à sala de ensaio/ofício para conduzir uma aula! Inegável dizer que esse tempo de isolamento forçado afetou, dentre inúmeras outras coisas, o modo em que me preparei pra esse momento. Sair do “automático” dá um outro sentido pras coisas. Estar conduzindo um processo não tem nada de “automático”, não é sobre isso! Eu demorei bem mais do que imensa maioria da humanidade pra me colocar em contato presencial. Fatos: 1. a gente nunca sabe se vai lidar com alguém que seja negacionista de carteirinha; 2. era necessário ver como as pessoas iriam se comportar pós a vacinação tardia no Brasil; 3. eu precisava estar com a segunda dose da minha vacina e concluir os quinze dias dela, para seguir com as recomendações que eu tanto gostaria que todes seguissem; 4. eu respeito a mim, aos meus afetos e aos meus potenciais afetos.

Então, eu demorei, e isso me tirou do afã que só o automático (ou uma pessoa ansiosa!) tem. Mas, cada momento de espera esteve, de alguma forma, significado no meu retorno. Porque retornar foi, mais do que nunca, uma escolha que se deu a partir de como percebo a forma com que eu trabalho. Desde onde, com quem, para que, quando… e que essas escolhas, precisavam ficar evidentes, sabe? Ditas, escritas, materializadas! Até 2019 eu acreditava um monte nas “entrelinhas”, achava que as pessoas iriam “captar” meu lance, estando próximas a mim. Funcionou em alguns casos, acho. Nunca se sabe! Depois de 2020, quando nunca foi tão necessário defender o óbvio, achei por bem passar a ser óbvia para algumas coisas. Ser clara sobre as minhas escolhas profissionais, é uma delas.

E as duas meninas de ontem, que testemunharam esse retorno, foram inundadas da chuva de “posições de Rita” sobre o seu fazer. Desde o que deve estar na mochila, passando por técnica, estética e ética, até a estrutura pensada para os encontros. E isso foi dito, esteve naquela sala como uma entidade, uma presença. Ou, quem sabe, um segundo piso por onde convido à dançar?! Não sei. Para quem sabe o que significa a expressão “respiração celular” (Laban/Bartenieff) fica clara a imagem da presença que irradia. Tem uma relação direta com isso: com um marcador que move. Tá, acho que falei demais! Porque, quando a gente se põe a falar, há uma teia de sentidos que toma forma e vamos percebendo os nós, as intersecções… E, o bacana disso, o melhor, eu diria, foi ouví-las. Me propuz a inaugurar esse retorno assim, para poder, nas próximas vezes, instaurar um território de outras presenças. Presenças que dialoguem com essas, que irão dialogar com outras, numa prosa de corpos, de existências que são manifestas em diálogos múltiplos.

Ainda não pude abraçá-las! Mas, acho que, para “bom entendedor”, esse foi um dos melhores “abraços” que já dei.